
“Representa as famílias brasileiras”, define Grace Passô ao comentar sobre o filme Nosso Segredo, que terá estreia mundial no 76º Festival de Berlim, ampliando ainda mais a presença do cinema brasileiro no cenário internacional. Na trama, uma família negra tenta reconstruir a própria rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.
A obra foi selecionada para o 76º Festival de Berlim, que ocorre entre 12 e 22 de fevereiro, e integra a competição Perspectives, nova seção competitiva do evento. Responsável pela direção e pelo roteiro, Grace Passô reforça o eixo central do longa. “O filme traz algo muito importante: o quanto o afeto, dentro das famílias brasileiras, latino-americanas e, historicamente, das famílias negras, estrutura as nossas vidas e garante a nossa sobrevivência diante das grandes perdas”, afirma.
Segundo a cineasta, esse afeto atravessa diferentes dimensões da existência. “Tanto comunidades negras quanto famílias negras sobrevivem às suas perdas historicamente, no plano íntimo e afetivo, mas também no plano histórico e político, por meio da união e do cuidado”, completa.
Carreira premiada
- Grace Passô é uma das grandes referências do teatro e do cinema brasileiro. Recebeu, por duas vezes, o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio e também por duas vezes o Candango no Festival de Brasília.
- Em 2018, a artista foi eleita a melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Turim, na Itália.
- Também recebeu diversos prêmios com o curta-metragem República, filmado durante a pandemia no apartamento em que morava.
- Como dramaturga, já recebeu os prêmios APCA, Prêmio Leda Maria Martins e Prêmios Shell do Rio e de São Paulo, tendo sido a primeira dramaturga negra brasileira a receber o prêmio.
- Com uma trajetória marcada por trabalhos autorais, dirigiu várias peças teatrais dentro de companhias e agrupamentos de teatro.
Nosso Segredo nasce a partir da primeira peça de teatro escrita por Grace Passô. A diretora destaca que, embora o filme não seja autobiográfico, a narrativa mistura memórias de sua infância com elementos de imaginação e dialoga diretamente com a realidade de muitas famílias negras brasileiras.
“É uma família com gerações diferentes: uma mãe mais velha, uma irmã, jovens, um homem mais velho, uma criança. É uma família que construiu sua casa com muito trabalho. Uma família de trabalhadores, cuja vida é construída através do trabalho. Eu mostro essa família de uma forma muito afetiva, o modo como se relacionam com a vida e como tentam atravessar as questões difíceis da existência. Isso diz muito sobre o Brasil”, ressalta.

Sucesso internacional
Sobre a estreia de Nosso Segredo no Festival de Berlim, a cineasta Grace Passô não esconde o entusiasmo. Para ela, o lançamento internacional é um divisor de águas: “Estrear fora do Brasil alarga a experiência cultural das plateias. Ver o olhar de outra cultura sobre uma história tão íntima é muito importante, porque amplia a experiência do filme e permite entender até onde ele pode chegar”, ressalta.
Veterana no festival, Grace celebra o retorno ao evento com uma produção autoral e profundamente conectada às suas raízes mineiras. “Levar um filme feito em Belo Horizonte para o mundo reforça a sensação de que a diversidade das histórias brasileiras está rompendo fronteiras. A forma como narramos quem somos e o que representamos está em plena transformação”, afirma.
O sucesso de Nosso Segredo em Berlim faz parte de uma fase de sucesso do audiovisual brasileiro. Após o impacto histórico de Ainda Estou Aqui — vencedor do Globo de Ouro e do Oscar em 2025 —, o país mantém o fôlego global este ano com a repercussão de O Agente Secreto.
Grace Passô destaca que esse momento amplia o olhar sobre o Brasil, indo além de estereótipos. Além disso, reforça que o cinema brasileiro já se consolidou como indústria, gerando muitos empregos: “O Brasil vive um momento de repensar a sua própria história. Muitas narrativas aprendidas em instâncias oficiais estão sendo recontadas. Isso é uma escolha ética, de cidadania”.
Questionada sobre a possibilidade de o Brasil ganhar o Oscar neste ano, Grace destaca: “Eu acho que já ganhamos. Muitos já estão falando de um filme tão importante como O Agente Secreto, um filme arriscado, bonito, grandioso. Se fosse uma Copa do Mundo, seria uma final Brasil contra Brasil”, finaliza.
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