
“Cuidar de quem cuida”. Para alguns, a frase pode ser considerada um clichê, mas na vida real estar atento à saúde mental dos médicos é algo primordial para o profissional e até mesmo para a qualidade do tratamento. Em especial no campo da oncologia, uma área que muitas vezes lida com a morte, o esgotamento emocional é grande e é preciso criar mecanismos para reduzi-lo.
A saúde mental dos oncologistas foi um dos temas tratados na 11ª edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio, que aconteceu no final de março no Rio de Janeiro.
Em palestra, a psicóloga Erika Pallottino, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) afirmou que muitas vezes o médico é ensinado a não sofrer emocionalmente com a perda do paciente, mas a dor é totalmente justificada, visto que se trata de uma vida.
“A formação médica historicamente vai oferecer a objetividade, o controle emocional e a sensação de distanciamento e neutralidade. No entanto, estar em luto pelo seu paciente é legítimo”, afirma Erika, que é especialista em psicologia em oncologia pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Para a oncologista Clarissa Baldotto, que também participou do debate, a saúde mental dos próprios profissionais é um tema importante e deve ser discutido desde a formação dos médicos.
“Quando terminei a residência, praticamente não se falava de saúde mental. Era uma pressão no sentido de que demonstrar tristeza pela perda do paciente fosse uma fraqueza do ponto de vista técnico. Hoje, já se fala mais sobre a saúde mental, mas ainda é algo que precisa ser mais trabalhado”, avalia a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), em entrevista ao Metrópoles.
Luto e burnout na oncologia: diferentes, mas relacionados
Outro aspecto que torna o luto profissional deslegitimado e que, consequentemente, atrapalha a saúde mental, é a confusão com o burnout.
O primeiro se caracteriza por uma dor emocional, um sentimento comum causado pela dor de pacientes. Já o burnout é um termo que se refere a uma doença ocupacional provocada pelo estresse prolongado, gerando exaustão física e mental. Ambos são uma resposta do corpo, mas a questões distintas.

Apesar de diferentes, os dois termos se relacionam. Quando ignorado, o luto profissional pode afetar diretamente a ocorrência da síndrome ocupacional. Por isso, se torna cada vez mais importante normalizar o sentimento entre os profissionais e não reprimi-lo.
“Há cerca de 10 anos temos estudos que mostram o impacto do luto no profissional como uma sobreposição do burnout, que amplifica o adoecimento emocional, e não se fala sobre isso. Vemos o luto profissional como um problema e não é. Ele nada mais é que uma uma reação normal e esperada do corpo”, diz Erika.
Como melhorar a saúde mental dos profissionais
Além de normalizar a sensação de luto desde a formação, as profissionais avaliam a importância de um suporte institucional, criando redes de apoio e acolhimento para ajudar os médicos, independente da área, a lidar com a perda. Em alguns casos, a procura por terapia também pode ajudar.
“Cuidar da saúde mental do oncologista não é apenas sobre uma questão de bem-estar profissional, mas é também uma condição para preservar a qualidade do cuidado que a gente oferece pros nossos pacientes”, conclui a psicóloga.
Source link
https://chumbogrossodf.com.br/psicologa-avalia-sobre-a-saude-mental-de-oncologistas/?fsp_sid=288216